O JOGO QUE A PIXAR MATOU
A Pixar foi à justiça para provar que era dona do conceito de monociclo digital. Venceu, e um dos jogos mais rápidos do SNES morreu com 300 mil cópias.
Imagine um jogo publicado pela própria Nintendo, desenvolvido pelo estúdio que anos depois criaria Grand Theft Auto, elogiado pela crítica e vendendo bem. Agora imagine esse jogo sendo retirado de produção para sempre porque a Pixar alegou na justiça ser dona do conceito de um monociclo animado por computador. Essa é a história real de Uniracers.
Lançado em dezembro de 1994 nos Estados Unidos e em abril de 1995 na Europa sob o nome Unirally, Uniracers nasceu na DMA Design, o estúdio escocês de Dundee que já havia criado Lemmings e que anos depois se transformaria na Rockstar North, casa de Grand Theft Auto. O projeto começou como uma tech demo com o codinome 1×1, um simulador de monociclo absurdamente difícil que a equipe percebeu ter potencial para virar um jogo de corrida e manobras.
O conceito era ousado: corridas de monociclos sem ciclista, vivos e cheios de personalidade, disputando pistas em alta velocidade enquanto o jogador encadeava manobras para ganhar impulso. A DMA era, ao lado da Rare, uma das poucas desenvolvedoras com acesso às estações Silicon Graphics, a mesma tecnologia por trás dos visuais de Donkey Kong Country. Os monociclos foram renderizados previamente em 3D com tanto capricho que era possível ver a rosca dos parafusos em sprites de cerca de 32 pixels. Para entender a física do veículo, os desenvolvedores chegaram a andar de monociclo de verdade pelos corredores do escritório.
A recepção foi positiva. A crítica elogiou a velocidade insana, a sensação de fluidez a 60 quadros por segundo e a trilha sonora acelerada. A Nintendo queria justamente isso: um jogo que parecesse mais rápido que Sonic para provocar a Sega em seu próprio território. E a provocação estava dentro do próprio cartucho, como veremos adiante.
Então veio o golpe. Pouco depois do lançamento, a Pixar processou alegando que os monociclos de Uniracers copiavam o protagonista de Red’s Dream, curta de animação de 1987 sobre um monociclo que sonha em brilhar no circo. Detalhe importante: os monociclos do jogo não têm olhos, boca ou qualquer traço antropomórfico. Ainda assim, a justiça deu razão à Pixar. Mike Dailly, veterano da DMA, resumiu o absurdo da situação: para ele, a Pixar parecia acreditar que qualquer monociclo gerado por computador pertencia a ela.
A consequência foi devastadora. Como parte do acordo, a Nintendo ficou proibida de fabricar novos cartuchos. As 300 mil unidades da tiragem inicial se tornaram as únicas que existiriam para sempre. O jogo nunca ganhou relançamento físico ou digital, nunca apareceu no Virtual Console e segue ausente de qualquer catálogo oficial da Nintendo até hoje. Um dos jogos mais rápidos e criativos do SNES virou peça de colecionador por decisão judicial.
Uniracers é um daqueles casos em que a história fora da tela supera qualquer fase do jogo. Um estúdio escocês em ascensão, a Nintendo provocando a Sega, monociclos a 60 quadros por segundo e um processo bizarro sobre quem inventou o monociclo digital. O resultado é um clássico condenado à raridade, preso em 1994 por ordem judicial.
Se você tem um SNES e cruzar com um cartucho de Uniracers ou Unirally por aí, saiba que está diante de uma relíquia com uma das histórias mais malucas da era 16 bits. E da próxima vez que ouvir falar da Pixar, lembre que antes de Toy Story virar febre ela encontrou tempo para tirar um jogo de monociclos do mercado.
► Qual outro jogo raro do SNES merece um especial aqui no Jogo Velho? ♪