O RPG que ressuscitou o mundo e morreu com ele
Você passou 30 horas reconstruindo o mundo do zero. Plantas, animais, cidades, civilizações. Então o jogo te conta que você foi uma marionete do Diabo o tempo todo. E que por isso você vai deixar de existir. Terranigma não tem pena de ninguém.
Imagine um jogo em que você passa dezenas de horas ressuscitando o mundo, fazendo plantas crescerem, animais evoluírem e civilizações surgirem do nada. E então, nos minutos finais, descobre que foi uma marionete do Diabo o tempo todo.
Terranigma foi lançado em 20 de outubro de 1995 no Japão, desenvolvido pela Quintet e publicado pela Enix. É o terceiro e último capítulo de uma trilogia não oficial de action-RPGs da Quintet, iniciada com Soul Blazer (1992) e continuada com Illusion of Gaia (1993). Os três jogos compartilham temas de criação, morte e renascimento, mas Terranigma os leva ao extremo absoluto. O design dos personagens ficou a cargo de Kamui Fujiwara, mangaká que depois trabalharia em séries como Dragon Quest: The Adventure of Dai.
A história começa no subterrâneo. Ark é um menino irrequieto que vive em Crysta, uma aldeia submersa nas profundezas da Terra. Um dia ele abre uma porta proibida e solta acidentalmente uma força que congela todos os habitantes. Para desfazer o dano, o ancião do vilarejo o manda à superfície com uma missão simples: reabrir os cinco portais que mantêm os continentes adormecidos. Ark obedece. Ressuscita as plantas. Ressuscita os animais. Ressuscita os humanos. Acompanha o nascimento de civilizações inteiras, vê o surgimento de cidades como uma Neo Tokyo pixelada e futurista. Tudo parece uma jornada de redenção.
Então vem o golpe. Nas últimas horas do jogo, Ark descobre que foi manipulado desde o início pela Dark Gaia, a entidade do Mal que habitava a porta proibida. Ressuscitar o mundo era o plano da Escuridão: ela precisava de um instrumento inocente para reconstruir a Terra e então tomá-la. Pior ainda: Ark foi criado pela Dark Gaia. Ele é um ser do lado sombrio. Quando o herói finalmente derrota a Escuridão, sua própria existência se apaga junto. A aldeia de Crysta, o subterrâneo, todos os seus amigos e memórias, tudo desaparece. O mundo que ele construiu segue adiante. Ele não.
O jogo termina com um último vislumbre: a princesa Elle acorda ao som de alguém batendo na sua porta. Ela corre para abrir. A câmera nunca mostra quem está do outro lado. A sugestão de que Ark foi reencarnado é o único consolo que o jogo oferece, e o jogo não confirma nada.
E por que a América do Norte nunca recebeu o jogo? Pela razão mais burocrática e triste possível: quando a localização em inglês ficou pronta, a Enix of America já havia encerrado suas operações. A distribuidora simplesmente fechou as portas antes do lançamento. A versão europeia, publicada pela Nintendo, saiu em dezembro de 1996 e é a única edição oficial em inglês que existe até hoje. Décadas depois, fãs produziram patches de compatibilidade NTSC para quem quisesse jogar o cartucho europeu num hardware americano.
Terranigma é o tipo de jogo que a indústria raramente produz: uma obra que usa a mecânica de progressão como metáfora narrativa. Cada chefe derrotado, cada continente ressuscitado, cada cidade construída carrega peso emocional real porque tudo aquilo é construído pelo jogador junto com Ark. E é exatamente por isso que o final dói tanto.
Se você nunca jogou, a versão europeia roda em emuladores com plena compatibilidade. O cartucho original é raro e valioso. De qualquer forma, é uma experiência que qualquer fã de RPG deveria ter pelo menos uma vez na vida.
► Qual é o final mais trágico que você já viveu num videogame? ♪