ISS
DELUXE
o futebol que virou lenda
Antes do FIFA dominar tudo, um cartucho da Konami ensinou uma geração inteira a amar videogame de futebol. Nomes falsos, craques reais e narração que atrasava na hora errada. Esta é a história do International Superstar Soccer Deluxe.
Tem um som que qualquer um que cresceu nos anos 90 reconhece na hora: aquela narração empolgada gritando “It’s a biiiiig kick!” meio segundo atrasada, enquanto a bola já estava do outro lado do campo. O International Superstar Soccer Deluxe não tinha licença de jogador nenhum, não tinha escudos oficiais, não tinha nem o nome certo dos craques. E mesmo assim foi, para muita gente, o melhor jogo de futebol de 16 bits já feito. Esta é a história de como a Konami transformou limitação em lenda.
Quando o ISS Deluxe chegou em 1995, jogo de futebol em console caseiro era, na maioria, decepcionante. O FIFA International Soccer tinha a licença, mas a jogabilidade era engessada; o Super Soccer da própria Nintendo já parecia datado. A Konami, mais especificamente a divisão de Osaka, a KCEO, pegou tudo isso e virou do avesso.
No Japão o jogo se chamava Jikkyou World Soccer 2: Fighting Eleven, e era a sequência direta do primeiro International Superstar Soccer. A diferença estava nos detalhes: cada jogador tinha atributos próprios de velocidade, chute, dribble, equilíbrio e resistência, então os atletas pareciam de verdade diferentes uns dos outros, algo que os rivais simplesmente não entregavam. Eram 36 seleções, 16 formações táticas e 8 estratégias. Pela primeira vez, parecia uma partida de futebol de verdade.
Os jogos de futebol eram bem ruins até a série International Superstar Soccer aparecer. Gaming Respawn, retrospectiva do ISS Deluxe
O ISS Deluxe nasceu no Super Nintendo, mas não ficou só lá. Curiosamente, as versões de Mega Drive e PlayStation só saíram oficialmente na Europa, e a do Mega nem foi feita pela Konami.
Aqui está o grande charme, e também a grande sacanagem, do ISS Deluxe. Sem licença da FIFPro, a Konami não podia usar os nomes reais. A solução? Inventar nomes parecidos e desenhar os sprites com o cabelo, a posição e o estilo de jogo idênticos aos ídolos reais. Qualquer fã de futebol dos anos 90 batia o olho e sabia exatamente quem era cada um.
Boa parte da magia do ISS Deluxe está nos pequenos detalhes: alguns geniais, outros hilariamente quebrados.
A narração que atrasava. A grande marca registrada. O comentarista soltava frases prontas como “Down the wing!”, “Incredible control!” e o lendário “It’s a biiiiig kick!”, só que muitas vezes no momento errado, comentando um lance que já tinha acabado. Virou piada afetuosa de toda uma geração.
Detalhes que pareciam vida real. Substituições vinham com pequenas cutscenes, havia condições climáticas, comemorações curtas a cada gol e até a torcida cantando ao fundo. Para 1995, era imersão de outro nível.
Modo Cenário (Scenario). Um modo subestimado que colocava você dentro de situações específicas: pegar a Escócia empatada em 0 a 0 e ter que vencer, ou virar um jogo perdendo de dois gols. Pequenos desafios de roteiro que davam um sabor extra.
Se você é brasileiro, talvez nunca tenha jogado o “ISS Deluxe”, mas quase certamente jogou um dos seus filhos clandestinos. A popularidade absurda do jogo na América do Sul gerou uma onda de ROM hacks distribuídos em cartuchos piratas pelo continente inteiro.
Esses hacks trocavam as seleções por clubes locais: bandeiras viravam escudos, os nomes fictícios viravam jogadores de verdade do campeonato nacional, a narração em inglês virava espanhol ou aquele “portunhol” improvisado. Saíram pérolas como Futebol Brasileiro 96, Ronaldinho Soccer 97, Ronaldinho Campeonato 98 e Campeonato Brasileiro 99, além de versões argentinas e colombianas. Para muita gente da nossa geração, esse era o jogo de futebol da infância, sem nem saber que por baixo morava um clássico da Konami.
Nada de trailer dos anos 90 estilizado: o melhor jeito de matar a saudade é ver o gameplay completo rodando no Super Nintendo, narração atrasada e tudo.
No fim, o ISS Deluxe é uma prova de que paixão vence orçamento. Sem uma única licença oficial, a Konami fez um jogo tão cheio de personalidade que ninguém ligava para os nomes errados; todo mundo sabia que estava jogando com o Romário, o Baggio, o Maradona. A limitação virou identidade.
Anos depois, a Konami pegaria todo esse DNA e criaria o Pro Evolution Soccer, que dominaria os videogames de futebol por uma década. Mas tudo começou aqui, num cartucho de 16 bits com narração que chegava meio segundo atrasada, e que mesmo assim soava como música.
► E você jogava o original ou um cartucho pirata? Conta nos comentários! ♪