► JOGO VELHO · ESPECIAL · FUTEBOL 16 BITS

ISS DELUXE
o futebol que virou lenda

Antes do FIFA dominar tudo, um cartucho da Konami ensinou uma geração inteira a amar videogame de futebol. Nomes falsos, craques reais e narração que atrasava na hora errada. Esta é a história do International Superstar Soccer Deluxe.

► ESPECIAL FUTEBOL ► LEITURA ~7 MIN JUNHO 2026

Tem um som que qualquer um que cresceu nos anos 90 reconhece na hora: aquela narração empolgada gritando “It’s a biiiiig kick!” meio segundo atrasada, enquanto a bola já estava do outro lado do campo. O International Superstar Soccer Deluxe não tinha licença de jogador nenhum, não tinha escudos oficiais, não tinha nem o nome certo dos craques. E mesmo assim foi, para muita gente, o melhor jogo de futebol de 16 bits já feito. Esta é a história de como a Konami transformou limitação em lenda.

Quando o ISS Deluxe chegou em 1995, jogo de futebol em console caseiro era, na maioria, decepcionante. O FIFA International Soccer tinha a licença, mas a jogabilidade era engessada; o Super Soccer da própria Nintendo já parecia datado. A Konami, mais especificamente a divisão de Osaka, a KCEO, pegou tudo isso e virou do avesso.

No Japão o jogo se chamava Jikkyou World Soccer 2: Fighting Eleven, e era a sequência direta do primeiro International Superstar Soccer. A diferença estava nos detalhes: cada jogador tinha atributos próprios de velocidade, chute, dribble, equilíbrio e resistência, então os atletas pareciam de verdade diferentes uns dos outros, algo que os rivais simplesmente não entregavam. Eram 36 seleções, 16 formações táticas e 8 estratégias. Pela primeira vez, parecia uma partida de futebol de verdade.

Os jogos de futebol eram bem ruins até a série International Superstar Soccer aparecer. Gaming Respawn, retrospectiva do ISS Deluxe

O ISS Deluxe nasceu no Super Nintendo, mas não ficou só lá. Curiosamente, as versões de Mega Drive e PlayStation só saíram oficialmente na Europa, e a do Mega nem foi feita pela Konami.

#01
Super Nintendo
Konami (KCEO) · 1995
A versão original e definitiva. É nela que a maioria das pessoas jogou e é a referência de toda a fama do jogo. Lançada no Japão em setembro de 1995.
#02
Mega Drive
Factor 5 · 1996
Port europeu desenvolvido pela Factor 5 (a mesma da série Turrican). Teve que comprimir o trabalho da Konami para o hardware da Sega, e só saiu na Europa.
#03
PlayStation
Konami · 1997
O último a chegar, já em plena era 32 bits, também exclusivo da Europa. Um lançamento meio anacrônico, mas que mostra o quanto o jogo ainda vendia.
Sobre os números de vendas: a Konami nunca divulgou cifras oficiais do ISS Deluxe isoladamente. O que é documentado é que a franquia International Superstar Soccer se tornou uma das séries de terceiros mais vendidas nos consoles da Nintendo, e que o Deluxe foi um sucesso gigantesco, especialmente na América do Sul, onde virou fenômeno (mais sobre isso lá embaixo). Quem te mostrar um número exato e redondo, provavelmente está chutando.

Aqui está o grande charme, e também a grande sacanagem, do ISS Deluxe. Sem licença da FIFPro, a Konami não podia usar os nomes reais. A solução? Inventar nomes parecidos e desenhar os sprites com o cabelo, a posição e o estilo de jogo idênticos aos ídolos reais. Qualquer fã de futebol dos anos 90 batia o olho e sabia exatamente quem era cada um.

#01
Allejo → Bebeto
Brasil · atacante
O camisa 20 brasileiro, baseado no Bebeto, é talvez o jogador mais lembrado e amado do game. Rápido, frio na finalização. Controlar o Brasil com ele era quase trapaça.
#02
Gomez → Romário
Brasil · atacante
O parceiro de ataque, modelado no Romário recém-campeão do mundo em 94. Baixinho, explosivo e letal na pequena área, fiel ao original.
#03
Murillo → Valderrama
Colômbia · meia
Impossível disfarçar: aquele black power loiro entrega na hora o Carlos Valderrama. Tão poderoso no jogo que sozinho ganhava partidas para a Colômbia, bem mais do que conseguiu nas Copas reais.
#04
Capitale → Batistuta
Argentina · atacante
O artilheiro argentino é o Gabriel Batistuta, o Batigol. Chute potente, presença de área, exatamente como o craque da Fiorentina jogava de verdade.
#05
Redonda → Maradona
Argentina · meia
O maestro da Argentina, inspirado em ninguém menos que Diego Maradona. Baixinho, genial com a bola nos pés, o coração do meio-campo argentino.
#06
Galfano → Baggio
Itália · meia-atacante
O rabo de cavalo entrega: é o Roberto Baggio, o Divino Rabo de Cavalo que quase levou a Itália ao título em 94. Técnico, elegante, decisivo.

Boa parte da magia do ISS Deluxe está nos pequenos detalhes: alguns geniais, outros hilariamente quebrados.

A narração que atrasava. A grande marca registrada. O comentarista soltava frases prontas como “Down the wing!”, “Incredible control!” e o lendário “It’s a biiiiig kick!”, só que muitas vezes no momento errado, comentando um lance que já tinha acabado. Virou piada afetuosa de toda uma geração.

Detalhes que pareciam vida real. Substituições vinham com pequenas cutscenes, havia condições climáticas, comemorações curtas a cada gol e até a torcida cantando ao fundo. Para 1995, era imersão de outro nível.

Modo Cenário (Scenario). Um modo subestimado que colocava você dentro de situações específicas: pegar a Escócia empatada em 0 a 0 e ter que vencer, ou virar um jogo perdendo de dois gols. Pequenos desafios de roteiro que davam um sabor extra.

Sem save, só senha: o cartucho não salvava progresso. Para retomar campeonatos, o jogo usava um sistema de passwords, aquelas sequências enormes que você anotava num papel e rezava para não digitar errado. Até quatro jogadores podiam disputar ao mesmo tempo usando o adaptador Multi-Tap.

Se você é brasileiro, talvez nunca tenha jogado o “ISS Deluxe”, mas quase certamente jogou um dos seus filhos clandestinos. A popularidade absurda do jogo na América do Sul gerou uma onda de ROM hacks distribuídos em cartuchos piratas pelo continente inteiro.

Esses hacks trocavam as seleções por clubes locais: bandeiras viravam escudos, os nomes fictícios viravam jogadores de verdade do campeonato nacional, a narração em inglês virava espanhol ou aquele “portunhol” improvisado. Saíram pérolas como Futebol Brasileiro 96, Ronaldinho Soccer 97, Ronaldinho Campeonato 98 e Campeonato Brasileiro 99, além de versões argentinas e colombianas. Para muita gente da nossa geração, esse era o jogo de futebol da infância, sem nem saber que por baixo morava um clássico da Konami.

Nada de trailer dos anos 90 estilizado: o melhor jeito de matar a saudade é ver o gameplay completo rodando no Super Nintendo, narração atrasada e tudo.

No fim, o ISS Deluxe é uma prova de que paixão vence orçamento. Sem uma única licença oficial, a Konami fez um jogo tão cheio de personalidade que ninguém ligava para os nomes errados; todo mundo sabia que estava jogando com o Romário, o Baggio, o Maradona. A limitação virou identidade.

Anos depois, a Konami pegaria todo esse DNA e criaria o Pro Evolution Soccer, que dominaria os videogames de futebol por uma década. Mas tudo começou aqui, num cartucho de 16 bits com narração que chegava meio segundo atrasada, e que mesmo assim soava como música.

► Qual era o seu craque preferido: Allejo, Murillo ou aquele Galfano de rabo de cavalo?
► E você jogava o original ou um cartucho pirata? Conta nos comentários! ♪
JV
Equipe Jogo Velho
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