MOON: REMIX RPG ADVENTUREO ANTI RPG QUE INSPIROU UNDERTALE
E se o herói do RPG for o verdadeiro monstro? Em 1997, ex funcionários da Square fizeram essa pergunta em um jogo que o ocidente levou 23 anos para poder jogar. Sem Moon, talvez não existisse Undertale.
Imagine um RPG onde o herói invade casas, quebra vasos, saqueia baús e extermina centenas de criaturas inocentes. Agora imagine que você não é esse herói. Você é um garoto sugado para dentro do jogo com a missão de reviver cada animal que ele matou. Esse é Moon: Remix RPG Adventure, lançado para o PlayStation em 16 de outubro de 1997, apenas no Japão, e talvez o jogo mais subversivo da era 32 bits.
A história por trás do estúdio já seria matéria suficiente. A Love-de-Lic foi fundada por ex funcionários da Square que decidiram abandonar a fábrica de Final Fantasy para questionar tudo o que o gênero representava. O trio de diretores reunia Yoshiro Kimura, Taro Kudo e Kenichi Nishi, e o grupo passou mais de dois anos construindo o que eles mesmos chamavam de anti RPG. A editora ASCII Entertainment topou publicar a loucura.
A inversão começa nos primeiros minutos. Um garoto joga um RPG genérico chamado Fake Moon até a mãe mandar desligar o console e ir dormir. De madrugada, a televisão liga sozinha e o puxa para dentro do jogo. Só que agora ele vê o mundo pelo outro lado: o herói de Fake Moon é um brutamontes que aterroriza a população, e os monstros que ele caça são apenas animais indefesos. Em vez de pontos de experiência, o garoto acumula Love, conquistado ao capturar as almas dos bichos mortos pelo herói e ao realizar os desejos secretos dos moradores.
Nada em Moon funciona como o esperado. Não existe combate. Existe um limite de ações que funciona como relógio biológico: se o garoto não voltar para a cama a tempo, ele simplesmente desmaia de exaustão. Até a trilha sonora é um sistema próprio, o MoonDisc, um tocador dentro do jogo com dezenas de faixas colecionáveis compostas por mais de 30 músicos independentes japoneses, liderados pela equipe interna apelidada de The Thelonious Monkees.
E então vem o final, um dos mais comentados da história dos RPGs. Durante todo o jogo, personagens repetem o conselho abra a porta. Depois de acumular amor suficiente, o jogador descobre que a porta não fica no mundo de fantasia. A resposta envolve a mãe do garoto, o quarto dele no mundo real e uma decisão que quebra a quarta parede de um jeito que pouquíssimos jogos ousaram repetir. Sem entregar tudo: a saída do jogo não está dentro do jogo.
Moon nunca saiu oficialmente do Japão nos anos 90, virando lenda entre colecionadores e importadores. A redenção veio décadas depois. Após conversar com Toby Fox, criador de Undertale, que citava Moon como influência direta na filosofia de um RPG onde não é preciso matar ninguém, o diretor Yoshiro Kimura decidiu finalmente localizar sua obra. A versão em inglês chegou ao Nintendo Switch em 2020 pela Onion Games, seguida por PC e PlayStation 4 em 2021 e Mac em 2022. Foram 23 anos de espera.
Moon: Remix RPG Adventure é a prova de que a era 32 bits escondia experimentos radicais muito além dos blockbusters. Enquanto o mundo jogava Final Fantasy VII, um pequeno estúdio de Tóquio perguntava se salvar o mundo não seria, na verdade, desfazer toda a destruição causada pelo herói.
Hoje o jogo está acessível em Switch, PC, PS4 e Mac com legendas em inglês. Se você ama RPGs e nunca viveu essa experiência, está diante de um pedaço fundamental da história do gênero.
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