Em 1992, um grupo de veteranos da Capcom lançou um dos melhores jogos de plataforma da história do NES. Quase ninguém comprou. O estúdio fechou as portas logo depois. E hoje, mais de trinta anos mais tarde, uma cópia lacrada de Little Samson vale perto de 20 mil dólares, o que faz dele o jogo licenciado de varejo mais caro de todo o catálogo do console.
Little Samson nasceu na Takeru, estúdio japonês fundado em 1990 por ex-funcionários da Capcom. A direção ficou com Shinichi Yoshimoto, designer que havia trabalhado em clássicos como Ghouls n Ghosts e Strider, e a arte com Kiyoshi Utata. No Japão o jogo saiu em 26 de junho de 1992 com o nome Seirei Densetsu Lickle, e chegou à América do Norte em novembro do mesmo ano, publicado pela Taito.
A grande sacada do jogo são os quatro heróis intercambiáveis a qualquer momento: Samson, o garoto ágil que ataca jogando sinos; Kikira, uma princesa amaldiçoada que virou dragoa e cospe fogo; Gamm, um ladrão transformado em golem de pedra, lento mas com o soco mais forte do grupo; e K.O., um mago que virou rato por acidente e consegue entrar em passagens minúsculas plantando bombas pelo caminho. Cada fase pede combinações diferentes, numa fórmula que lembra Mega Man encontrando Castlevania III.
O problema nunca foi qualidade, foi timing e marketing. Em novembro de 1992 o mundo já babava no Super Nintendo e no Mega Drive, e a Taito praticamente não divulgou o jogo. Estima-se que pouquíssimas cópias tenham sido produzidas para o mercado americano, com especulações apontando algo em torno de 10 mil cartuchos, número exato que se perdeu no tempo. Há até uma teoria curiosa de que o nome Samson tenha afastado compradores nas lojas, confundido com os famigerados jogos bíblicos não licenciados da época, sendo que o jogo não tem relação alguma com religião.
O fracasso comercial foi fatal. Little Samson acabou sendo o último lançamento da Takeru antes de o estúdio implodir. Boa parte da equipe migrou para a Mitchell Corporation, mas alguns membros do time simplesmente sumiram da indústria de games depois do projeto. Uma equipe com pedigree de Capcom, um jogo tecnicamente impecável no limite do hardware do NES, e mesmo assim o mercado seguiu em frente sem olhar para trás.
A redenção veio pelas mãos dos colecionadores. Com o passar das décadas, a combinação de tiragem minúscula e qualidade absurda transformou o cartucho em objeto de desejo. Hoje uma cópia solta varia de 1.200 a 8.800 dólares dependendo da condição, uma completa na caixa passa dos 6 mil, e exemplares lacrados beiram os 20 mil dólares. Em 2024 uma cópia apareceu num leilão de caridade da Goodwill nos Estados Unidos e virou notícia no mundo todo.
Little Samson é o retrato perfeito de uma injustiça clássica dos videogames: qualidade não garante sucesso. O jogo que deveria ter consagrado a Takeru acabou sendo seu atestado de óbito, e só décadas depois o mundo percebeu o que havia deixado passar nas prateleiras.
A boa notícia é que ninguém precisa vender um carro para conhecer o jogo hoje. Emulação existe, o longplay está aí em cima, e a aula de game design dos quatro heróis continua atual como em 1992.
► Se dinheiro não fosse problema, qual cartucho raro você caçaria? ♪