A obra-prima do NES que quase ninguém jogou
O jogo tem um final onde a menina é salva. Mas para ver esse final você precisa coletar seis itens escondidos nas fases e terminar o jogo inteiro sem usar uma única continuação. Em 1992, sem internet, ninguém sabia disso. A maioria das pessoas que comprou o cartucho nunca soube que havia mais história.
Em janeiro de 1992, enquanto o mundo já jogava Super Mario World no Super Nintendo, a Sunsoft lançou no Famicom um jogo com gráficos que rivalizavam com o hardware de 16 bits, uma trilha sonora produzida com um chip de áudio que não existia em nenhum outro cartucho e um personagem que era uma estrelinha verde tentando salvar a dona de uma brincadeira que deu muito errado.
Gimmick! foi lançado no Japão em 31 de janeiro de 1992 para o Famicom, desenvolvido e publicado pela Sunsoft. O diretor Tomomi Sakai exigiu da equipe um nível técnico capaz de competir visualmente com o Super Famicom, o que era uma ambição absurda para o hardware de oito bits. O resultado foi um dos jogos com melhor aparência já feitos para o Famicom: cenários com múltiplos planos de paralaxe, animações fluidas e uma paleta de cores usada com precisão cirúrgica. Em 1992, rodando num console lançado em 1983, isso era quase impossível.
A história é deceptivamente simples. Yumetaro é uma pequena criatura verde em forma de estrela que uma menina ganha de presente de aniversário. Os outros brinquedos dela, com ciúme do recém-chegado, ganham vida durante a noite, sequestram a garota e a levam para outra dimensão. Yumetaro, o brinquedo caçula que ninguém levava a sério, parte sozinho para salvá-la. Não existe narrativa grandiosa. Não existe vilão com discurso. Existe uma estrelinha pequena correndo atrás de alguém que a amou desde o primeiro dia.
A mecânica central é única: Yumetaro pode atirar uma estrela que quica nas superfícies com física realista, acelerando, mudando de ângulo e de velocidade dependendo de como é lançada e de onde bate. Dominar essa física é o coração do jogo. Jogadores iniciantes a usam de forma básica. Jogadores avançados constroem trajetórias calculadas para atingir inimigos em posições aparentemente impossíveis. Em 1992, num cartucho de Famicom, isso era física de colisão de um nível que o hardware mal deveria suportar.
Na Europa, o jogo foi distribuído apenas na Escandinávia (Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia) pela Bergsala AB, a mesma empresa que distribui produtos Nintendo na região até hoje. Com o título Mr. Gimmick, chegou em quantidades mínimas e praticamente sumiu do mercado antes que alguém percebesse. Na América do Norte, nunca chegou. O cartucho original de Mr. Gimmick para NES é hoje um dos mais raros e caros do mercado de colecionadores, com cópias em bom estado alcançando valores na casa de milhares de dólares.
Gimmick! é o tipo de jogo que define o que significa ser underground no mundo dos videogames. Não é desconhecido por ser ruim. É desconhecido porque chegou tarde demais, em hardware considerado obsoleto, num mercado pequeno, sem distribuição para a maior parte do mundo. Quem o descobriu, descobriu uma das melhores experiências que o Famicom tem a oferecer.
A Special Edition de 2023 está disponível em todas as plataformas e é a entrada mais acessível. O cartucho original japonês é mais viável financeiramente. O Mr. Gimmick europeu, se você encontrar, provavelmente vale mais do que imagina.
► Qual é o jogo mais obscuro que você já jogou e recomendaria para todo mundo? ♪