O CONSOLE DE US$ 970 QUE QUASE NINGUÉM VIU
E se alguém te dissesse que existiu um console que era Mega Drive, Sega CD, PC Engine, LaserDisc player e karaokê ao mesmo tempo, e que quase ninguém comprou? Ele existiu e custava o preço de um carro usado.
Imagine um aparelho que toca filmes em LaserDisc, roda cartuchos de Mega Drive, discos de Sega CD, HuCards e CD ROM2 de PC Engine, tem módulo de karaokê profissional e ainda ganhou óculos 3D antes do Virtual Boy existir. Esse aparelho existiu, chamava Pioneer LaserActive e custava US$ 970 só na base.
O LaserActive CLD A100 chegou ao Japão em 20 de agosto de 1993 por 89.800 ienes e aos Estados Unidos em 13 de setembro do mesmo ano por US$ 970, o equivalente a mais de US$ 2.100 em valores atuais. A proposta da Pioneer era ambiciosa: um único aparelho de sala para filmes, música e videogames, numa época em que o LaserDisc era o auge do home video para entusiastas.
O detalhe curioso é que, sozinho, o LaserActive não rodava jogo nenhum. Ele era apenas um player de LaserDisc e CD. Para jogar, você precisava comprar os módulos de expansão chamados PACs, vendidos separadamente. O Sega PAC custava US$ 600 e transformava o aparelho num Mega Drive completo com Sega CD, além de rodar os discos exclusivos no formato Mega LD. O NEC PAC, também de US$ 600, fazia o mesmo com o PC Engine, aceitando HuCards, CD ROM2 e os discos LD ROM2. Quem quisesse o pacote completo com o módulo de karaokê de US$ 350 gastava cerca de US$ 2.550 em 1993.
Os jogos em LaserDisc eram o grande diferencial. Um disco de LaserDisc guardava vídeo analógico de qualidade muito superior ao que qualquer console da época conseguia exibir, e os jogos exclusivos usavam isso para criar experiências de full motion video com sprites do Mega Drive ou do PC Engine sobrepostos ao filme. Pyramid Patrol, o jogo que acompanhava o Sega PAC, colocava o jogador numa nave explorando uma pirâmide marciana construída pela civilização perdida de Mu, com cenários inteiros em vídeo rodando por trás da mira.
A biblioteca exclusiva ficou em cerca de 31 títulos, a maioria no formato Mega LD. Entre eles havia raridades absolutas como Vajra, Ghost Rush e experiências que só faziam sentido em LaserDisc, como Virtual Cameraman e o passeio turístico 3D Virtual Australia, que em 1996 se tornou o último lançamento oficial da plataforma. A Pioneer ainda lançou os óculos 3D Goggles GOL 1, com sistema de shutter ativo compatível com seis jogos, anos antes de a Nintendo tentar algo parecido com o Virtual Boy.
O fim era previsível. Com PlayStation e Saturn chegando em 1994 com gráficos 3D reais e preços muito menores, um aparelho de quase mil dólares que dependia de módulos de US$ 600 não tinha para onde correr. A Pioneer descontinuou o LaserActive em 1996 com cerca de 10 mil unidades vendidas. Hoje, um sistema completo com os PACs e os jogos raros alcança valores altíssimos em leilões, e discos Mega LD lacrados estão entre os itens mais cobiçados do colecionismo Sega.
O LaserActive foi a aposta mais extravagante da era 16 bits: a ideia de um centro de entretenimento modular estava certa, mas o preço e o timing estavam brutalmente errados. Ele resume um momento único em que Sega e NEC toparam colocar seus consoles dentro do aparelho de um terceiro fabricante, algo impensável hoje.
Se você nunca tinha ouvido falar desse gigante da Pioneer, bem vindo ao clube: quase ninguém viu um de perto. E é exatamente por isso que ele merece ser lembrado.
► Pagaria US$ 970 num videogame em 1993? Conta pra gente nos comentários ♪