GOLDEN AXE! Machados, magias e dragões
Golden Axe por inteiro: consoles, diferenças entre 1, 2 e 3, spin-offs, easter eggs e o futuro da franquia com novo game e série animada.
Em 1989 os fliperamas eram dominados por lutadores de rua, ninjas e artistas marciais. Aí a Sega soltou um jogo em que você escolhia entre um bárbaro, uma amazona e um anão raivoso, montava em dragões cuspidores de fogo e atravessava um reino de fantasia a golpes de machado e magia. Golden Axe não inventou o gênero, mas deu a ele uma alma: a do sword and sorcery, a da capa de fita VHS oitentista, a de jogar grudado no ombro de um amigo. Mais de três décadas depois, ele volta a ser notícia. Esta é a história inteira.
O cérebro por trás de Golden Axe foi Makoto Uchida, da divisão AM1 da Sega, o mesmo que tinha criado Altered Beast em 1988. A ideia original era ousada: Uchida queria fazer um RPG no estilo Dragon Quest, com mundo aberto e progressão. A direção da Sega vetou. Fliperama vivia de moeda e partida rápida, não de horas de exploração. O conceito foi simplificado para um beat ‘em up de fantasia, com inspiração direta nos filmes de Conan, o Bárbaro que Uchida adorava. Uma equipe minúscula de cinco pessoas tocou o projeto em cerca de um ano.
O cenário é Yuria, um reino medieval tomado pelo tirano Death Adder, que sequestrou o rei e a princesa e roubou o lendário machado de ouro. Três guerreiros marcham para detê-lo: Ax Battler, o bárbaro equilibrado de magia da terra; Tyris Flare, a amazona ágil e devastadora com magia de fogo; e Gilius Thunderhead, o anão baixinho e teimoso, mestre dos raios. A magia vinha de poções: bastava chutar os ladrõezinhos azuis que apareciam entre as fases para soltarem os frascos. Os ladrões verdes, mais raros, largavam comida que recuperava vida.
Eu queria desafiar o Double Dragon, mas com uma reviravolta própria. Makoto Uchida, criador de Golden Axe
Poucos jogos da época foram tão portados quanto Golden Axe. Ele nasceu na placa de arcade Sega System 16B e logo se espalhou. A versão de Mega Drive / Genesis (1989 no Japão, 1990 no Ocidente) virou quase um cartão de visita do console, mostrando que o 16 bits da Sega entregava arcade em casa. Ela não era um porte cru: ganhou uma fase extra, um modo Duel (sobrevivência contra ondas de inimigos), um final novo e, em alguns portes domésticos, um chefe final secreto chamado Death Bringer, mentor de Death Adder.
A trilogia principal toda saiu no Mega Drive, mas cada jogo tem personalidade própria. Vale dizer de cara: o Golden Axe II de console e o Golden Axe de arcade seguiram caminhos diferentes, porque nos fliperamas a “sequência de verdade” foi outra (falaremos dela mais abaixo). Aqui está o que separa os três cartuchos:
A franquia foi muito além da trilogia numerada. Tem joia escondida, tem experimento estranho e tem o tropeço que quase todo fã prefere esquecer:
É aqui que o especial fica divertido. Coisas que pouca gente conhece sobre Golden Axe:
O final que quebra a quarta parede. Na versão de arcade, depois de derrotar Death Adder, o jogo mostra três crianças jogando Golden Axe num fliperama fechado. A máquina dá um curto-circuito, pega fogo, e os personagens “vazam” para o mundo real e começam a perseguir as crianças, enquanto os heróis correm atrás para protegê-las. Esse desfecho maluco foi cortado da versão de Mega Drive, que ganhou outro final.
Códigos e truques. No Mega Drive, no modo arcade, segure Baixo/Esquerda + B e aperte Start na tela de seleção de personagem para liberar a seleção de fase. Tem também um truque clássico de chefe: na fase 6, solte magia no exato momento em que o chefe ainda está saindo pela porta, e ele despenca pelo chão e morre na hora.
O chefe secreto. Em vários portes domésticos (Mega Drive, Mega-CD, Game Boy Advance, WonderSwan), depois de Death Adder ainda aparece o verdadeiro chefe final: Death Bringer, o mestre dele. Vencer rende o tal machado de ouro que, na lenda do jogo, concede poder e imortalidade.
Golden Axe foi um sucesso comercial e cultural imediato. Segundo a Killer List of Videogames, foi o arcade mais importante de 1989. Relatos da época apontam que ele esteve entre os jogos de fliperama que mais faturaram nos Estados Unidos e figurou no top 20 de arcades no Japão. O porte de Mega Drive ajudou a vender o console como “arcade em casa” e se tornou um dos títulos mais associados à máquina.
Boa notícia: não precisa garimpar cartucho caro para revisitar Yuria. As formas oficiais e fáceis de jogar hoje incluem:
Abaixo, o trailer oficial de revelação do novo Golden Axe, apresentado no The Game Awards 2023 dentro do bloco Power Surge da Sega:
Para reviver os clássicos, vale assistir aos longplays no YouTube. Veja gameplay completo de cada jogo: Golden Axe (arcade), Golden Axe II, Golden Axe III e The Revenge of Death Adder.
Golden Axe está prestes a voltar em duas frentes. No The Game Awards 2023, a Sega anunciou um novo jogo da franquia dentro da iniciativa Power Surge, ao lado de revivais de Shinobi, Streets of Rage, Crazy Taxi e Jet Set Radio. O teaser mostrou um action em 3D moderno, com os três heróis originais (Ax, Tyris e Gilius) e indícios de cooperativo. Até meados de 2026, porém, o projeto segue sem data de lançamento e bem quieto, o que deixou os fãs apreensivos. Para efeito de comparação, o irmão de revival Shinobi: Art of Vengeance já chegou às lojas em 2025; Golden Axe ainda não.
A segunda frente é televisiva. A Comedy Central encomendou uma série animada adulta de 10 episódios baseada no jogo, criada por Mike McMahan (de Star Trek: Lower Decks) e Joe Chandler, com animação do estúdio Titmouse. É uma comédia que homenageia o original de 1989. No elenco de vozes: Matthew Rhys como Gilius, Lisa Gilroy como Tyris, Liam McIntyre como Ax Battler, Carl Tart como Chronos “Evil” Lait e Danny Pudi como Hampton Squib, um aventureiro novato criado para a série. A estreia é esperada para 2026, mas a data exata ainda não foi confirmada.
Golden Axe nunca foi o beat ‘em up mais profundo nem o mais polido. O que ele tem é identidade: aquela fantasia oitentista de capa pintada à mão, o dragão que cospe fogo, o anão raivoso, a sensação de estar dentro de um filme de Conan barato e maravilhoso. É um jogo que cabe inteiro na memória afetiva de quem cresceu no fliperama ou grudado na tela com a fitinha do Mega.
Talvez seja exatamente por isso que a Sega insiste em trazê-lo de volta. Num momento em que clássicos viram filme, série e reboot, Golden Axe prova que algumas lendas não enferrujam: só esperam o momento certo de empunhar o machado de novo.
► E você, time Ax Battler, Tyris Flare ou Gilius? Conta nos comentários! ♪