FUNKOTRON
NA TERRA
A história dos alienígenas mais funky dos videogames
De uma praia no Havaí à lenda do Mega Drive. ToeJam & Earl é um dos jogos mais originais já criados, e esse especial conta tudo: a origem, a música, os humanos malucos, as continuações polêmicas e o retorno triunfal. Um favorito pessoal de todos os tempos.
Era 1991. O Mega Drive brigava de igual para igual com o Super Nintendo, e o mundo dos games era dominado por plataformers rápidos, beat’em ups violentos e corridas de adrenalina. E então apareceu um jogo sobre dois aliens rappers que caíram no planeta errado, precisavam catar pedaços de uma nave e tentavam, desesperadamente, escapar dos humanos mais bizarros do universo. Não havia chefes. Não havia pressa. Só funk, presentes misteriosos e um senso de humor que nunca mais foi replicado. ToeJam & Earl não era um jogo: era um estado de espírito.
Greg Johnson estava numa praia no Havaí quando a ideia surgiu. Ele havia trabalhado no clássico de sci-fi Starflight para a Electronic Arts, e queria criar algo que combinasse a atmosfera espacial daquele jogo com a mecânica aleatória de Rogue, o lendário dungeon crawler de 1980 que gerava fases de forma procedural. Mas Johnson queria algo mais leve, mais engraçado, mais funk. O resultado foi uma premissa absurda e genial: dois aliens adolescentes rappers, vindos do planeta Funkotron, caem na Terra depois que um deles resolve dirigir a nave sem permissão.
Johnson conheceu o programador Mark Voorsanger por acaso, enquanto caminhava no Mount Tam, na Califórnia, em 1989. Os dois se associaram, formaram a Johnson Voorsanger Productions e foram bater à porta da Sega of America, que na época era uma empresa pequeníssima, de uns 20 funcionários. Johnson apresentou o conceito usando cartões desenhados à mão, mostrando as ilhas flutuantes geradas aleatoriamente. O executivo Hugh Bowen ficou imediatamente interessado: a Sega queria mascotes novos para competir com a Nintendo, e esses aliens malucos pareciam perfeitos.
“Era um negócio de garagem. Eu e Mark, mais alguns amigos. Mas a gente sabia que tinha algo especial ali.” Greg Johnson, criador de ToeJam & Earl
O jogo foi desenvolvido em pouco mais de um ano por uma equipe minúscula. Johnson cuidou da direção criativa e até das vozes dos personagens. A arte, a narrativa e o humor saíram diretamente da sua cabeça. ToeJam e Earl, segundo o próprio Johnson, eram dois aspectos diferentes da sua própria personalidade. Voorsanger, por sua vez, realizou o que a própria Sega dizia ser impossível: implementou um sistema de split-screen dinâmico para o modo dois jogadores, onde a tela se dividia e se reunia conforme os personagens se afastavam ou se aproximavam. Tecnicamente impressionante para o hardware do Mega Drive.
ToeJam & Earl foi lançado em 15 de outubro de 1991 para o Mega Drive/Genesis. A premissa é simples: ToeJam e Earl precisam coletar 10 pedaços de sua nave espalhados por 25 ilhas flutuantes geradas aleatoriamente. Para chegar à próxima ilha, é preciso encontrar o elevador. Se você cair da borda, vai parar no nível anterior. Se cair muitas vezes, de volta ao começo.
A perspectiva é isométrica, em 3/4, e o ritmo é deliberadamente lento. Isso era proposital. Johnson queria um jogo contemplativo, de exploração, onde a descoberta fosse a recompensa. O principal recurso dos personagens são os presentes embrulhados: itens misteriosos que você não sabe o que são até abrir. Uma vez identificado o tipo de embrulho, você passa a saber o que esperar ao encontrar um igual. Podem ser itens ótimos ou armadilhas, e a tensão de abrir um presente desconhecido nunca perde a graça.
ToeJam é vermelho, tem três pernas e é um pouco mais rápido. Earl é amarelo, grandão, usa shorts de bolinhas e tem mais resistência. No modo de dois jogadores, cada um assume um personagem, e a tela se divide quando eles se afastam demais. Isso criava momentos memoráveis: um jogador tentando escapar do Boogeyman enquanto o outro ri do lado de fora da tela.
Gameplay: Mega Drive Longplay [163] ToeJam & Earl · Jogado por JagOfTroy · Canal World of Longplays (longplays.org) · Ver no YouTube
Se há um elemento que define ToeJam & Earl tanto quanto sua jogabilidade, é a trilha sonora. O compositor John Baker foi inspirado por Herbie Hancock e The Headhunters para criar algo que soasse completamente diferente de tudo que existia em consoles em 1991. O resultado é uma mistura de jazz-funk e hip-hop instrumental que usa o chip de som do Mega Drive de formas que poucos compositores conseguiram replicar.
O processo criativo era inusitado: Greg Johnson cantarolava as linhas de baixo e as melodias num gravador de cassete, caminhando por colinas no Nevada para não ser ouvido por ninguém. Depois entregava as fitas para Baker, que transformava em músicas completas em MIDI. Eram apenas 6 faixas no jogo original, mas cada uma delas é tão marcante que décadas depois bandas como The OneUps ainda regravaram o material.
► Trilha sonora completa do original (Mega Drive):
[SEGA Genesis Music] ToeJam & Earl — Full Original Soundtrack OST · Compositor: John Baker · Gravado em hardware NTSC Genesis Model 1 VA3 original · Ver no YouTube
O grande charme narrativo de ToeJam & Earl é sua visão dos humanos através dos olhos alienígenas: criaturas caóticas, agressivas, obcecadas com posses que não precisam e completamente desprovidas de qualquer senso de funk. O manual do jogo descreve os Earthlings como “os habitantes mais imprevisíveis do setor”, e o jogo não economiza no absurdo. Cada encontro é uma piada sobre a condição humana.
Boogeyman
Mailbox Monster
Phantom Ice Cream Truck
Santa com Jetpack
Nerd Herd
Cupido
Lil’ Devil
O lançamento em outubro de 1991 foi, nas palavras da Sega, um fracasso comercial. As vendas iniciais eram baixas, e a empresa considerou o projeto decepcionante em termos de números. Mas algo curioso aconteceu: o jogo começou a se espalhar boca a boca. Quem jogava, falava para os amigos. Quem via alguém jogar, precisava experimentar. No Natal de 1991, o Genesis viveu um boom de vendas graças ao Sonic the Hedgehog, e ToeJam & Earl surfou essa onda.
No final, ToeJam & Earl vendeu aproximadamente 350.000 cópias, número considerado notável para um título tão não-convencional numa plataforma ainda jovem. A crítica especializada foi unanimemente entusiasmada: a Entertainment Weekly o elegeu o 9º melhor jogo de 1991 e depois o colocou na posição 26 de seu ranking dos melhores jogos de todos os tempos. A Sega Visions disse ser “o jogo mais esdrúxulo que já apareceu no Genesis”. O jogo se tornou um sucesso cult e um dos títulos exclusivos mais importantes do Mega Drive.
Com o sucesso cult do original, uma continuação era inevitável. E é aqui que a história de ToeJam & Earl se torna tão fascinante quanto complicada. Cada novo jogo tomou decisões radicalmente diferentes, num ciclo de experimentos, interferências de publisher e oportunidades perdidas.
Johnson e Voorsanger queriam fazer uma sequência fiel ao original: mais Earthlings, mais terrenos, mais ilhas, e a possibilidade de entrar em ambientes fechados. A Sega não se impressionou. A empresa achava o conceito difícil de vender e pressionou para que o jogo se tornasse um platformer 2D no estilo mais convencional, semelhante ao que Sonic representava. A dupla cedeu.
ToeJam & Earl in Panic on Funkotron lançado em 1993 conta a história: ToeJam e Earl voltam ao planeta Funkotron como heróis, mas descobrem que alguns Earthlings entraram clandestinamente na nave e estão causando caos no planeta funky. A missão agora é capturá-los em potes especiais e mandá-los de volta. O jogo é um platformer side-scrolling, visualmente deslumbrante, com sprites enormes e animações ricas, e com uma trilha sonora ainda mais elaborada de John Baker. Mas não era o que os fãs do original queriam.
A recepção da crítica foi positiva: a Mean Machines disse que era “uma sequência que supera o original” e a EGM celebrou a experiência. Mas a comunidade de fãs do primeiro jogo ficou dividida. Uma pesquisa posterior da IGN mostrou que a maioria ainda preferia o original, embora 28% dos respondentes considerassem Panic on Funkotron o melhor da série. O próprio Johnson disse depois que se arrepende da decisão. O vice-presidente de desenvolvimento da Sega chegou a admitir o mesmo anos depois.
► Gameplay de Panic on Funkotron:
Mega Drive Longplay [424] ToeJam & Earl in Panic on Funkotron · Jogado por Mad-Matt · Canal World of Longplays (longplays.org) · Ver no YouTube
A história do terceiro jogo é um épico de oportunidades perdidas. Após desentendimentos com a Sega (a empresa deteve os direitos dos personagens até 1995), Johnson e Voorsanger tentaram emplacar uma sequência no Nintendo 64 com a GT Interactive. O acordo caiu. Tentaram no PlayStation 2. Não deu. Então surgiu a oportunidade com o Dreamcast da Sega, que parecia perfeita. O prototype chegou a ser desenvolvido e era mais próximo do espírito do primeiro jogo, em 3D. E o Dreamcast morreu.
O jogo acabou indo para o Xbox, em 2002, como um acordo de conveniência com a Microsoft. ToeJam & Earl III: Mission to Earth trouxe os personagens em 3D, com uma nova protagonista chamada Latisha, e a missão de recuperar os “Doze Álbuns Sagrados do Funk” das mãos do vilão Anti-Funk. A Lisa “Left Eye” Lopes do TLC quase emprestou a voz para Latisha, mas desentendimentos financeiros impediram o acordo.
A recepção foi morna. Críticos reconheceram o charme e o humor, mas o jogo foi acusado de ser genérico e de não capturar a magia dos originais. A GameSpot o elegeu o “game mais decepcionante do Xbox” em 2002. Foi um fracasso comercial. O prototype do Dreamcast, descoberto em 2013 e liberado para download em 2018, revelou que aquela versão cancelada era muito mais fiel à essência da série.
► Gameplay de Mission to Earth (Xbox):
Xbox Longplay [049] ToeJam & Earl III: Mission to Earth (EU) · Jogado por RickyC · Canal World of Longplays (longplays.org) · Ver no YouTube
Depois do fracasso de Mission to Earth, ToeJam e Earl desapareceram por 17 anos. Greg Johnson fundou a HumaNature Studios e trabalhou em outros projetos. Mas a saudade dos fãs nunca foi embora. Em 2015, Johnson anunciou uma campanha no Kickstarter: queria fazer o jogo que a Sega nunca deixou ele fazer em 1992. Sem publisher. Sem interferência. O jogo do jeito que devia ter sido.
A campanha tinha uma meta de 400.000 dólares e foi financiada em 25 de março de 2015, dois dias antes do prazo. Encerrou com mais de 500.000 dólares arrecadados. O jogo levou mais tempo do que o esperado e teve cinco adiamentos entre 2016 e 2019, mas em 1 de março de 2019, ToeJam & Earl: Back in the Groove chegou para PC, Nintendo Switch, PlayStation 4 e Xbox One.
E quem apareceu para ajudar na divulgação? Macaulay Culkin. O ator de Esqueceram de Mim é um fã declarado da série desde a infância e chegou a interromper o Oscar para tuitar sobre ToeJam & Earl. Quando soube que o jogo estava em desenvolvimento, procurou Greg Johnson e acabou sendo creditado como produtor executivo. Ele até revelou para Johnson alguns glitches que ele e seus amigos tinham descoberto no jogo original, incluindo um truque para ter rocket skates infinitos.
“Fiquei tão animado quando consegui o cartucho autografado. Foi quase como encontrar um oráculo.” Macaulay Culkin, sobre conhecer Greg Johnson
Back in the Groove é essencialmente um remake melhorado do original: mesma perspectiva isométrica, mesma exploração de ilhas flutuantes geradas proceduralmente, mesmos presentes misteriosos. Mas com até 4 jogadores simultâneos (local ou online), 9 personagens jogáveis incluindo versões clássicas dos protagonistas, Latisha e Lewanda, e uma arte visual mais próxima de cartoons dos anos 90. A trilha sonora foi rearanjada por Cody Wright e Nick Stubblefield a partir dos temas originais, e chegou a ser lançada em três discos de vinil.
► Gameplay de Back in the Groove (2019):
ToeJam & Earl: Back in the Groove — Launch Trailer · Canal oficial HumaNature Studios · Lançamento: 1 de março de 2019 · Ver no YouTube
Existe uma razão pela qual ToeJam & Earl nunca desapareceu de verdade, mesmo quando ficou 17 anos sem um novo jogo. Ele representa algo que raramente aparece nos videogames: uma visão de mundo genuinamente original, filtrada por humor, música e afeto. Não é um jogo sobre vencer. É sobre explorar, descobrir, e cair de vez em quando porque você abriu um presente que mandou você para o nível de baixo. É sobre dois amigos tentando ir para casa. É sobre funk.
Para mim, esse é um dos meus jogos favoritos de todos os tempos, e revisitar essa história é lembrar por que os games dos anos 90 tinham uma alma inimitável. O Mega Drive era uma plataforma onde um desenvolvedor podia chegar com um conceito maluco, uma fita cassete cheia de basslines cantaroladas e um algoritmo de geração procedural, e criar algo que as pessoas ainda falam 35 anos depois. Isso não tem preço. Isso é funk.
► E você: prefere o original, Panic on Funkotron, ou adorou o Back in the Groove? A guerra dos fãs continua. ♪